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SEXUALIDADE NA CONSULTA MÉDICA

Publicado em 11 DE SETEMBRO DE 2026

SEXUALIDADE NA CONSULTA MÉDICA

Durante o Congresso de Endocrinologia realizado recentemente no Rio de Janeiro, um dos temas que despertou o interesse de grande parte dos congressistas foi o relacionado a abordagem da sexualidade na consulta médica.

O tema foi debatido pela Profa. Carmita Abdo, médica psiquiatra, sexóloga e professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), bastante conhecida por fundar e coordenar o Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clinicas da USP.

Inicialmente, ela mostrou que a sexualidade é uma dimensão essencial da vida humana e não pode ser reduzida ao ato sexual ou à reprodução. Foi bastante clara quando mostrou que falar de sexualidade significa referir-se a intimidade, desejo, prazer, autoestima, vinculo, identidade, expressão e relacionamento..

Nesse sentido, destacou que a própria Organização Mundial da Saúde considera a saúde sexual como um estado de bem-estar fisico, emocional, mental e social. Dessa forma, saúde sexual não significa apenas ausência de doença ou de disfunção. Significa também a possibilidade de viver a sexualidade de maneira segura, prazerosa, respeitosa e livre de coerção, discriminação e violência.

Apesar disso, ela lamenta que a sexualidade continua sendo um dos temas menos abordados nas consultas médicas em geral. Nesse sentido, muitos pacientes não perguntam por vergonha, medo de julgamento ou por imaginarem que o médico não está interessado no assunto. Por outro lado, muitos profissionais deixam de perguntar porque possivelmente não sabem como iniciar a conversa. Essa falta de diálogo pode esconder sofrimento significativo e também doenças que precisam ser reconhecidas.

Uma das principais mensagens da palestra da Profa. Carmita foi simples e extremamente prática: é necessário "pedir licença para entrar nesse território intimo. Ela exemplificou que numa consulta geral, uma pergunta como "Como está sua vida sexual?" pode ser seguida de outra ainda mais importante: "Você gostaria de conversar sobre isso?". Caso a resposta seja negativa, pode-se respeitar o momento, mas deixar em aberto a possibilidade de abordar o tema posteriormente. Mas se for positiva, obviamente cria-se um espaço de acolhimento e escuta. Essa abordagem é particularmente importante porque as dificuldades sexuais são frequentes.

Foi mostrada uma meta-análise publicada em 2024 que encontrou prevalência estimada de disfunção sexual de aproximadamente 31% entre homens e 41% entre mulheres, embora com grande heterogeneidade entre estudos e populações. De qualquer forma, isso significa que provavelmente uma parcela considerável de pacientes atendidos diariamente apresenta alguma queixa sexual.

Entretanto, a palestrante enfatizou que queixa sexual não é necessariamente sinônimo de disfunção sexual. Assim, para que uma alteração adquira significado clínico, é fundamental avaliar o sofrimento provocado por ela, seu contexto, sua duração e seu impacto sobre a pessoa ou sobre o relacionamento. E ainda, é necessário saber quando começou, se esteve presente durante toda a vida ou surgiu posteriormente e quais circunstâncias que podem ter desencadeado ou agravado o problema.

Mostrou também que a investigação clinica deve procurar saber se a dificuldade ocorre em todas as situações ou apenas em determinado contexto. Esse cuidado evita transformar automaticamente diferenças individuais da sexualidade em doenças.

Ressaltou que o antigo modelo linear da resposta sexual baseado nas fases de desejo, excitação, orgasmo e resolução, foi fundamental para o desenvolvimento da medicina sexual. No entanto, hoje já sabemos que a sexualidade humana é muito mais complexa e que esse modelo não explica adequadamente todas as experiências, particularmente as femininas. Assim é que desejo, excitação, prazer, intimidade, contexto emocional e relacionamento frequentemente se influenciam de maneira dinâmica.

Além disso, doenças e tratamentos podem interferir profundamente na sexualidade. Dessa forma, diabetes, obesidade, doenças cardiovasculares, depressão, ansiedade, alterações hormonais, menopausa, doenças neurológicas e determinados medicamentos estão entre os fatores que podem modificar desejo, excitação ou resposta sexual. No homem, a disfunção erétil merece atenção especial porque pode funcionar como marcador de risco cardiovascular e justificar uma investigação clínica mais ampla.

Na mulher, também é necessário abandonar a ideia de que a sexualidade desaparece com o envelhecimento. A OMS ressalta que a saúde sexual acompanha toda a trajetória da vida, da adolescência à velhice. Situações como menopausa, alterações geniturinárias, doenças crônicas, medicamentos, questões psicológicas e problemas conjugais podem interferir na resposta sexual, mas envelhecer não significa perder o direito ao desejo, ao prazer e à intimidade.

A consulta deve ser um espaço de segurança, confidencialidade e ausência de julgamento. Questionários estruturados e instrumentos validados podem ajudar na avaliação, mas nenhum questionário substitui a escuta qualificada. A grande contribuição da palestra da Profa. Carmita talvez esteja justamente nessa mudança de perspectiva: perguntar sobre sexualidade não significa invadir a intimidade do paciente e sim reconhecer uma dimensão legítima da saúde.

Em termos gerais, para o profissional de saúde, a primeira pergunta pode ser dificil. E para o paciente pode representar a oportunidade que esperava há anos para falar de um problema que interfere na autoestima, no relacionamento e na qualidade de vida. Por fim, ressaltou que cuidar da sexualidade é cuidar da pessoa em sua integralidade. E, muitas vezes, o primeiro tratamento começa simplesmente com uma pergunta feita com respeito: "Você gostaria de conversar sobre sua vida sexual?"

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Escrito por Dr. João Modesto

CRM-PB 973 / RQE 1026

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