São Paulo sediou, durante dois dias, um excelente evento para celebrar um ano de Tirzepatida no Brasil, evento esse de atualização científica sobre os avanços no tratamento da obesidade e das doenças cardiometabólicas.
Inicialmente, é importante salientar que durante décadas, a obesidade foi encarada como consequência de escolhas inadequadas relacionadas à alimentação e ao sedentarismo. Hoje, entretanto, esse conceito foi superado. Assim é que a obesidade tem sido reconhecida pelas principais sociedades médicas internacionais como uma doença crónica, multifatorial, progressiva e recidivante, resultante da interação entre fatores genéticos, neuroendocrinos, metabólicos, ambientais e comportamentais.
Nesse contexto, o evento do primeiro ano de utilização da tirzepatida no Brasil representa um marco nessa mudança de paradigma. Mais do que o lançamento de um novo medicamento, assistimos à consolidação de uma nova forma de compreender e tratar a obesidade.
Nas apresentações feitas, ficou bem claro que o tecido adiposo deixou de ser visto apenas como um reservatório de energia. Foi mostrado que ele funciona como um verdadeiro órgão endócrino, produzindo dezenas de substâncias, dentre as quais as citocinas inflamatórias e as adipocinas, que são capazes de interferir no metabolismo de praticamente todos os órgãos. Quanto maior o excesso de gordura, especialmente da gordura visceral, maior a intensidade da inflamação crônica de baixo grau.
Dessa forma, foi mostrado que a inflamação favorece a resistência à insulina, o diabetes tipo 2, a hipertensão arterial, a doença hepática gordurosa associada à disfunção metabólica (MASLD), a aterosclerose, a insuficiência cardíaca, diversos tipos de câncer, infertilidade, osteoartrite e o declinio da qualidade de vida.
Outro conceito amplamente discutido durante o evento foi o da gordura que não é visível, ou seja, aquela que temos nos órgãos como figado, coração, pâncreas, rins e musculatura esquelética. Esse tipo de depósito, quando inadequado, compromete o funcionamento dos órgãos e acelera o desenvolvimento das complicações metabólicas.
Um ponto bastante discutido foi o relativo a apneia obstrutiva do sono e que constitui outro excelente exemplo da complexidade da doença. O excesso de peso favorece o colabamento das vias aéreas durante o sono, o que provoca situações como hipóxia intermitente, aumento do estresse oxidativo, hiperatividade simpática e inflamação sistémica. Como consequência, temos o aumento do risco de diabetes, da hipertensão, de arritmias, do acidente vascular cerebral e do infarto do miocárdio.
Dessa forma, toma-se evidente que tratar apenas as complicações significa agir tardiamente. O tratamento moderno da obesidade busca interromper precocemente essa verdadeira cascata fisiopatológica. Por isso, a mudança de visão da obesidade foi o que permitiu o desenvolvimento desses medicamentos capazes de atuar nos mecanismos centrais da fome, da saciedade e do metabolismo energético.
Pesquisas científicas levaram a tirzepatida, um duplo agonista dos receptores de GIP e GLP-1 e que representa atualmente uma das terapias mais eficazes disponíveis, mostraram perdas médias de peso superiores a 20%, aproximando-se dos resultados observados em algumas modalidades de cirurgia bariátrica. Além disso, reduz significativamente o risco de evolução do pré-diabetes para diabetes tipo 2 e melhora condições como apneia do sono, esteatose hepática e fatores de risco cardiovascular.
Por isso, ficou bem claro que o objetivo do tratamento não é apenas perder peso, mas diminuir os vários tipos de gordura ("visível e visceral"), preservar a massa muscular, melhorar a capacidade funcional, reduzir a inflamação, prevenir as complicações e aumentar a expectativa e qualidade de vida. Isso exige acompanhamento multidisciplinar, orientação nutricional, prática regular de exercícios especialmente treinamento resistido, suporte psicológico quando necessário e monitorização da composição corporal e da função física.
O primeiro ano da tirzepatida no Brasil simboliza, portanto, muito mais do que a chegada de um medicamento, mas representa a consolidação de uma nova era em que a obesidade passa a ser tratada com a mesma seriedade com que tratamos o diabetes, a hipertensão e as doenças cardiovasculares. O maior beneficiado é o paciente, que finalmente dispõe de uma abordagem baseada na ciência, capaz de modificar a história natural da doença.