Compartilhe

UM ANO DE TIRZEPATIDA NO BRASIL - PARTE 1: COMO A CIÊNCIA ESTÁ TRANSFORMANDO O TRATAMENTO DA OBESIDADE

Publicado em 28 DE JULHO DE 2026

UM ANO DE TIRZEPATIDA NO BRASIL - PARTE 1:  COMO A CIÊNCIA ESTÁ TRANSFORMANDO O TRATAMENTO DA OBESIDADE

São Paulo sediou, durante dois dias, um excelente evento para celebrar um ano de Tirzepatida no Brasil, evento esse de atualização científica sobre os avanços no tratamento da obesidade e das doenças cardiometabólicas.

Inicialmente, é importante salientar que durante décadas, a obesidade foi encarada como consequência de escolhas inadequadas relacionadas à alimentação e ao sedentarismo. Hoje, entretanto, esse conceito foi superado. Assim é que a obesidade tem sido reconhecida pelas principais sociedades médicas internacionais como uma doença crónica, multifatorial, progressiva e recidivante, resultante da interação entre fatores genéticos, neuroendocrinos, metabólicos, ambientais e comportamentais.

Nesse contexto, o evento do primeiro ano de utilização da tirzepatida no Brasil representa um marco nessa mudança de paradigma. Mais do que o lançamento de um novo medicamento, assistimos à consolidação de uma nova forma de compreender e tratar a obesidade.

Nas apresentações feitas, ficou bem claro que o tecido adiposo deixou de ser visto apenas como um reservatório de energia. Foi mostrado que ele funciona como um verdadeiro órgão endócrino, produzindo dezenas de substâncias, dentre as quais as citocinas inflamatórias e as adipocinas, que são capazes de interferir no metabolismo de praticamente todos os órgãos. Quanto maior o excesso de gordura, especialmente da gordura visceral, maior a intensidade da inflamação crônica de baixo grau.

Dessa forma, foi mostrado que a inflamação favorece a resistência à insulina, o diabetes tipo 2, a hipertensão arterial, a doença hepática gordurosa associada à disfunção metabólica (MASLD), a aterosclerose, a insuficiência cardíaca, diversos tipos de câncer, infertilidade, osteoartrite e o declinio da qualidade de vida.

Outro conceito amplamente discutido durante o evento foi o da gordura que não é visível, ou seja, aquela que temos nos órgãos como figado, coração, pâncreas, rins e musculatura esquelética. Esse tipo de depósito, quando inadequado, compromete o funcionamento dos órgãos e acelera o desenvolvimento das complicações metabólicas.

Um ponto bastante discutido foi o relativo a apneia obstrutiva do sono e que constitui outro excelente exemplo da complexidade da doença. O excesso de peso favorece o colabamento das vias aéreas durante o sono, o que provoca situações como hipóxia intermitente, aumento do estresse oxidativo, hiperatividade simpática e inflamação sistémica. Como consequência, temos o aumento do risco de diabetes, da hipertensão, de arritmias, do acidente vascular cerebral e do infarto do miocárdio.

Dessa forma, toma-se evidente que tratar apenas as complicações significa agir tardiamente. O tratamento moderno da obesidade busca interromper precocemente essa verdadeira cascata fisiopatológica. Por isso, a mudança de visão da obesidade foi o que permitiu o desenvolvimento desses medicamentos capazes de atuar nos mecanismos centrais da fome, da saciedade e do metabolismo energético.

Pesquisas científicas levaram a tirzepatida, um duplo agonista dos receptores de GIP e GLP-1 e que representa atualmente uma das terapias mais eficazes disponíveis, mostraram perdas médias de peso superiores a 20%, aproximando-se dos resultados observados em algumas modalidades de cirurgia bariátrica. Além disso, reduz significativamente o risco de evolução do pré-diabetes para diabetes tipo 2 e melhora condições como apneia do sono, esteatose hepática e fatores de risco cardiovascular.

Por isso, ficou bem claro que o objetivo do tratamento não é apenas perder peso, mas diminuir os vários tipos de gordura ("visível e visceral"), preservar a massa muscular, melhorar a capacidade funcional, reduzir a inflamação, prevenir as complicações e aumentar a expectativa e qualidade de vida. Isso exige acompanhamento multidisciplinar, orientação nutricional, prática regular de exercícios especialmente treinamento resistido, suporte psicológico quando necessário e monitorização da composição corporal e da função física.

O primeiro ano da tirzepatida no Brasil simboliza, portanto, muito mais do que a chegada de um medicamento, mas representa a consolidação de uma nova era em que a obesidade passa a ser tratada com a mesma seriedade com que tratamos o diabetes, a hipertensão e as doenças cardiovasculares. O maior beneficiado é o paciente, que finalmente dispõe de uma abordagem baseada na ciência, capaz de modificar a história natural da doença.

Avatar

Escrito por Dr. João Modesto

CRM-PB 973 / RQE 1026

Ler Política Editorial Médica

Continue Lendo

Coluna Saúde MENOPAUSA SEM SOFRIMENTO: O QUE A CIÊNCIA RECOMENDA QUANDO A REPOSIÇÃO HORMONAL É A MELHOR ESCOLHA

28 DE JULHO DE 2026

MENOPAUSA SEM SOFRIMENTO: O QUE A CIÊNCIA RECOMENDA QUANDO A REPOSIÇÃO HORMONAL É A MELHOR ESCOLHA

Durante muitos anos a menopausa foi encarada como uma etapa inevitável da vida feminina, na qual o sofrimento deveria ser suportado com resignação.

Dermatologia Clínica Uso de Poliquimioterapia no Tratamento da Hanseníase

1 DE JUNHO DE 2026

Uso de Poliquimioterapia no Tratamento da Hanseníase

A poliquimioterapia (PQT) é o tratamento padrão ouro para hanseníase, disponível gratuitamente pelo SUS. O esquema combina rifampicina, dapsona e clofazimina e é altamente eficaz, curando a doença quando iniciado precocemente.

Dermatologia Clínica Upadacitinibe no vitiligo: estamos diante de uma nova era no tratamento?

4 DE AGOSTO DE 2026

Upadacitinibe no vitiligo: estamos diante de uma nova era no tratamento?

“Doutora, já existe remédio novo para vitiligo?” Essa é uma pergunta cada vez mais frequente no consultório. E, nos últimos anos, uma das respostas mais promissoras da pesquisa dermatológica tem sido o upadacitinibe, um inibidor seletivo da Janus quinase 1 (JAK1), já utilizado no tratamento de diversas doenças inflamatórias e autoimunes.

Dermatologia Clínica Pele Amarelada ou Escurecida. O Que Pode Ser?

1 DE JUNHO DE 2026

Pele Amarelada ou Escurecida. O Que Pode Ser?

Pele amarelada pode ser sinal de icterícia (doenças hepáticas e biliares), carotenemia (excesso de betacaroteno) ou outros distúrbios metabólicos. O escurecimento difuso pode indicar insuficiência adrenal ou outras condições sistêmicas que requerem investigação médica.

Coluna Saúde
Clínica Santa Catarina

15 DE JUNHO DE 2026

CONGRESSO AMERICANO DE DIABETES: A NOVA ERA DA DIABETOLOGIA

Por seu turno, um estudo intitulado "Legacy", chamou bastante a atenção ao demonstrar que a combinação precoce de incretinas e iSGLT2 atua como geroprotetor, ou seja, reduz o envelhecimento celular, protegendo contra o declínio cognitivo.

Fotoproteção Radiação Solar e Seus Efeitos na Pele

1 DE JUNHO DE 2026

Radiação Solar e Seus Efeitos na Pele

A radiação solar — principalmente UVA e UVB — causa danos cumulativos ao DNA cutâneo, sendo responsável por 80% do fotoenvelhecimento visível e pela grande maioria dos cânceres de pele. Entender esses efeitos reforça a importância da fotoproteção diária.