A obesidade, como amplamente conhecido, é uma doença
crônica, complexa e multifatorial que afeta mais de 1 bilhão de
pessoas em todo o mundo. Ela se associa a inúmeras
condições clínicas, incluindo diabetes tipo 2, doenças
cardiovasculares, esteatose hepática, apneia do sono e
determinados tipos de câncer, exigindo, assim, uma
abordagem terapéutica continua e individualizada.
Assim, com a evolução dos medicamentos incretinicos
estamos ampliado as possibilidades de tratamento.
Há poucos dias, em São Paulo, tivemos a apresentação de
uma nova substância, o orforglipron, um agonista não
peptídico do receptor de GLP-1 e que surge como uma
alternativa de administração oral, tomado uma vez ao dia e
sem necessidade de refrigeração. Tal característica poderá
facilitar a utilização por pessoas que enfrentam dificuldades
ou resistência ao uso de medicamentos injetáveis.
No entanto, a relevância dessa substância não se limita
apenas à conveniência. A perda de peso clinicamente
significativa constitui um objetivo terapéutico capaz de
melhorar parâmetros metabólicos, cardiovasculares e
funcionais. Já se sabe que reduções de 5% a 10% do peso
corporal proporcionam beneficios importantes, enquanto
perdas maiores podem contribuir para o controle do diabetes
tipo 2 e de complicações metabólicas associadas à
obesidade.
Nesse sentido, um estudo denominado ATTAIN-1, publicado
no New England Journal of Medicine em setembro de 2025,
avaliou 3.127 adultos com obesidade ou sobrepeso
associado a comorbidades, mas sem diabetes tipo 2. Esse
estudo, que foi randomizado, duplo-cego e controlado por
placebo, acompanhou os participantes durante 72 semanas,
com três doses de orforglipron: 6 mg, 12 mg e 36 mg.
Os resultados demonstraram redução de peso dependente da
dose. As perdas médias foram de 7,5%, 8,4% e 11,2%,
respectivamente, contra 2,1% no grupo placebo. Na maior
dose, 54,6% dos participantes alcançaram perda ponderal de
pelo menos 10%, enquanto 36,0% atingiram 15% e 18,4%
alcançaram 20%.
Também foram observadas melhorias na circunferência
abdominal, pressão arterial e perfil lipidico, reforçando a
importância de avaliar o tratamento para além da balança.
Mas a magnitude dessa alterações não deve ser
interpretada como demonstração de redução de eventos
cardiovasculares ou renais, pois tais desfechos necessitam
de estudos específicos. Por outro lado, o perfil de segurança
foi semelhante aquele observado para os agonistas do
receptor de GLP-1, como liraglutida, semaglutida e
tirzepatida. Logo, os efeitos adversos mais frequentes foram
os gastrointestinais, como náuseas, diarreia, võmitos e
constipação intestinal, geralmente de intensidade leve a
moderada. A descontinuação do tratamento por conta desses
efeitos ocorreu em 5,3% a 10,3% dos grupos tratados, contra
2,7% do placebo.
Esses dados reforçam a necessidade de titulação, avaliação
clinica e orientação sobre tolerabilidade. A prescrição deve
considerar contraindicações, comorbidades, medicamentos
concomitantes e possibilidade de efeitos adversos.
Temos ainda que um dos principais desafios no tratamento da
obesidade é o da manutenção dos resultados. Sabemos que
essa afecção envolve mecanismos biológicos que favorecem
a recuperação do peso após sua redução, o que torna
inadequada a ideia de que o tratamento termina quando uma
meta é alcançada.
Nessa linha, um outro estudo, o ATTAIN-MAINTAIN,
publicado esse ano na revista Nature Medicine, investigou a
utilização do orforglipron após redução ponderal obtida com
tratamentos injetáveis. Os resultados apontaram para
manutenção de parte substancial da perda de peso, embora o
estudo tenha limitações, como duração de um ano e ausência
de um grupo que continuasse o medicamento injetável.
Não obstante, devemos ter em mente que a conveniência da
administração oral não substitui o acompanhamento
multiprofissional, a alimentação adequada, a atividade fisica e
o tratamento das condições associadas.
Por tudo isso, o orforglipron representa uma etapa importante
na evolução dos medicamentos incretinicos. Sua estrutura
não peptidica e a administração oral mostram que pesquisas
podem explorar novas formas de ativação do receptor de
GLP-1. Em todo caso, a grande questão não é apenas quanto
peso o medicamento consegue reduzir, mas quais beneficios
clinicos sustentados pode proporcionar, para quais pacientes
e com que perfil de segurança em longo prazo.
Por isso, a investigação de desfechos cardiovasculares,
renais e de outras complicações relacionadas à obesidade
será fundamental para entendermos a compreensão de seu
papel terapéutico.
A chegada de novas opções terapéuticas representa uma
oportunidade de ampliar o cuidado, desde que acompanhada
de avaliação médica responsável, equidade de acesso e
compromisso com resultados clínicos duradouros.
Por fim, o orforglipron inaugura uma perspectiva relevante
para o tratamento oral da obesidade. Os resultados do
ATTAIN-1 demonstram eficácia ponderal e melhoras
cardiometabólicas, enquanto os estudos de manutenção e de
desfechos clinicos aumentam as perguntas sobre seu
impacto futuro. A endocrinologia deverá acompanhar essa
evolução com a soma de inovação, segurança e cuidado
centrado no paciente.
Escrito por Dr. João Modesto
CRM-PB 973 / RQE 1026