A ciência médica está vivendo uma transição silenciosa e profunda em vários setores. Nesse sentido, durante muito tempo as pesquisas focavam os genes como os determinantes das doenças. Hoje, cada vez mais cresce a evidência de que o ambiente, especialmente a exposição crônica a substâncias químicas, exerce papel igualmente decisivo.
Dessa forma, genética e ambiente não agem de forma isolada, mas em profunda interação e podem determinar o aparecimento de várias doenças. Por outro lado, uma pessoa pode herdar genes que a tornam mais vulnerável a certas doenças, mas o ambiente também pode causar doenças diretamente, até mesmo quando não existe predisposição genética.
Tecnicamente, o conjunto de exposições ao longo da vida leva o nome de exposoma, conceito que engloba todos os fatores ambientais que interagem com o organismo, desde a concepção até a morte. Estudos recentes europeus mostram que o corpo humano contém de centenas a milhares de compostos químicos simultaneamente, muitos deles ainda não identificados ou pouco compreendidos. Recentes revisões científicas indicam que mais de 3.600 substâncias provenientes apenas de materiais que entram contato com alimentos já foram detectadas em amostras humanas. Trata-se de uma exposição contínua, difusa e global.
No entanto, o problema não é apenas a presença dessas substâncias, mas a complexidade das interações entre elas e, nesse sentido, o exposoma considera misturas químicas e seus efeitos sinérgicos. Esse fenômeno, conhecido pelos estudiosos como "efeito coquetel", pode aumentar riscos de forma significativa, como já observado em estudos que associam múltiplas exposições a maior incidência de doenças neurocomportamentais e metabólicas.
Do ponto de vista epidemiológico, o exposoma representa uma mudança de paradigma. Ele permite compreender melhor a origem multifatorial de doenças crônicas como câncer, infertilidade, obesidade e distúrbios neurológicos. Pesquisas recentes apontam que substâncias como ftalatos, bisfenóis, pesticidas e PFAS estão associadas a desregulação hormonal, doenças cardiovasculares e impacto reprodutivo significativo. Além disso, estudos em populações vulneráveis demonstram que a exposição a misturas de pesticidas pode aumentar complicações gestacionais e riscos no desenvolvimento infantil.
Além disso, fatores como sexo, idade, ocupação, dieta e ambiente urbano influenciam diretamente o perfil químico individual. Crianças, por exemplo, apresentam maior vulnerabilidade devido as várias fases do seu desenvolvimento, enquanto populações urbanas tendem a maior exposição a compostos industriais como ftalatos e PCBs.
Por isso, para a prática clínica, trata-se de algo que implica numa mudança importante. Por exemplo, a anamnese deverá incorporar variáveis ambientais como alimentação, ocupação, uso de plásticos e cosméticos, qualidade do ar e da água e, desse modo, a abordagem preventiva ganhará protagonismo.
Temos que considerar que a poluição química não é um evento excepcional, mas parte do nosso cotidiano. Pequenas mudanças, como reduzir o uso de plásticos aquecidos, priorizar alimentos menos processados e melhorar a ventilação dos ambientes, podem ter impacto relevante.
Em síntese, a poluição química do corpo humano inaugura um novo campo na saúde que, segundo alguns, seria a medicina da exposição crônica. O maior desafio não é apenas identificar os contaminantes, mas compreender seus efeitos ao longo do tempo e traduzir esse conhecimento em políticas públicas e práticas clínicas eficazes.
Edição Semanal | João Pessoa - PB | 01/06/2026