COLUNA SAÚDE — Dr. João Modesto Filho
Médico Endocrinologista — CRM PB 973 | RQE 1026
DA OBESIDADE À PREVENÇÃO DO CÂNCER: O IMPACTO DOS AGONISTAS DO GLP-1
A relação entre obesidade e câncer é uma das fronteiras mais notáveis da medicina contemporânea, pois a obesidade é reconhecida como um dos principais fatores de risco modificáveis para o câncer. Estima-se que ela esteja relacionada a pelo menos 13 tipos diferentes de neoplasias malignas, incluindo câncer de mama pós-menopausa, do endométrio, do cólon, do fígado, dos rins e do pâncreas.
Por seu turno, os agonistas do receptor de GLP-1 representam uma das maiores revoluções terapêuticas da medicina moderna. Inicialmente desenvolvidos para o tratamento do diabetes tipo 2, medicamentos como semaglutida e tirzepatida rapidamente transformaram o tratamento da obesidade no mundo.
Em inúmeras áreas da medicina pesquisas estão sendo conduzidas com essas substâncias, inclusive na oncologia. Daí a pergunta: essas substâncias podem também desempenhar papel relevante na prevenção e no controle de alguns tipos de câncer?
Nesse sentido, é fato bem conhecido que a redução do excesso de gordura corporal diminui a resistência à insulina, o hiperinsulinismo, a inflamação sistêmica e a produção de mediadores pró-tumorais, o que irá determinar um ambiente metabólico menos favorável ao surgimento e crescimento de tumores.
Dessa forma, estamos diante da chamada "oncologia metabólica" que surge justamente da convergência entre metabolismo, obesidade, inflamação e câncer. Atualmente, sabemos que o câncer não é apenas uma doença genética, e que o excesso de tecido adiposo produz substâncias inflamatórias que alteram a imunidade e favorece condições para o crescimento tumoral. Assim, ao modificar esse cenário, os agonistas de GLP-1 podem atuar em vários níveis da doença.
Recentemente, no Congresso Anual da American Society of Clinical Oncology, em Chicago, foram discutidos estudos em que pacientes em uso desses agonistas apresentaram menor incidência de alguns tumores, menor risco de progressão metastática e, em determinadas situações, melhor sobrevida. Em alguns desses estudos, essas substâncias foram associadas a uma menor probabilidade de desenvolver câncer de mama, pulmão e pâncreas.
Num deles que envolveu quase 95 mil mulheres com sobrepeso ou obesidade, o uso desses agonistas foi associado a uma redução de aproximadamente 30% no risco de desenvolvimento de câncer de mama. Além disso, uma análise de mais de 12 mil pacientes com câncer de mama, pulmão, colorretal e fígado mostrou redução entre 38% e 50% na progressão para doença metastática.
No entanto, o fato que tem chamado atenção é que os benefícios observados podem não ser explicados apenas pela perda de peso. Evidências experimentais sugerem que os agonistas de GLP-1 exercem tanto efeitos anti-inflamatórios como imunomoduladores e metabólicos e que seriam capazes de interferir em processos relacionados à formação de tumores.
Entretanto, é fundamental interpretar tais resultados com cautela. Os estudos apresentados foram predominantemente observacionais e retrospectivos. Isso significa que demonstram associação, mas não comprovam causalidade.
Por outro lado, um aspecto relevante é o que envolve a medicina de precisão. Nos próximos anos, a integração entre farmacogenômica, biomarcadores moleculares e inteligência artificial poderá identificar quais indivíduos têm maior probabilidade de obter benefícios metabólicos e oncológicos com semaglutida, tirzepatida ou mesmo futuras substâncias como a retatrutida. Tal personalização poderá transformar profundamente as estratégias de prevenção e tratamento do câncer.
Em termos gerais, os dados atuais reforçam a necessidade de se ver os agonistas de GLP-1 não apenas como medicamentos para emagrecimento, mas como potenciais moduladores de múltiplas doenças.
Estamos diante do início de uma nova era terapêutica? Assim como as estatinas ultrapassaram o papel inicial de reduzir colesterol e passaram a integrar estratégias amplas de prevenção cardiovascular, os agonistas de GLP-1 podem estar iniciando uma trajetória semelhante. Ainda não podem ser considerados medicamentos antineoplásicos, mas os sinais observados são suficientemente consistentes para justificar enorme interesse científico. Se confirmados por estudos prospectivos, poderão se tornar uma das mais importantes ferramentas de prevenção do câncer desenvolvidas neste século.
Edição Semanal | João Pessoa - PB | 08/06/2026