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ANTIOXIDANTES: ENTRE A CIÊNCIA E OS MODISMOS

Publicado em 29 DE JUNHO DE 2026

ANTIOXIDANTES: ENTRE A CIÊNCIA E OS MODISMOS

COLUNA SAÚDE — Dr. João Modesto Filho
Médico Endocrinologista — CRM PB 973 | RQE 1026

ANTIOXIDANTES: ENTRE A CIÊNCIA E OS MODISMOS

Nos últimos anos os antioxidantes vêm conquistando enorme popularidade. Cada vez mais eles são encontrados nos alimentos, suplementos, bebidas funcionais e, mais recentemente, em infusões venosas que são comercializadas como "soros da longevidade", "soros detox" ou "soros revigorantes". Mas até que ponto essas atividades têm respaldo da ciência?

É fato bem conhecido que nosso organismo produz de forma contínua radicais livres durante o metabolismo normal. Essas substâncias participam da nossa defesa imunológica, da comunicação entre nossas células e da nossa adaptação ao exercício físico. No entanto, o problema aparece quando há ou um excesso de radicais livres ou uma redução das defesas antioxidantes, o que configura o chamado estresse oxidativo, que está envolvido no envelhecimento e em diversas doenças crônicas. Assim, para neutralizar esse processo, o próprio organismo dispõe de sistemas antioxidantes.

Por seu turno, a alimentação complementa esse mecanismo fornecendo vitaminas, minerais e compostos bioativos, conhecidos como polifenóis e carotenoides, que estão presentes em frutas, verduras, legumes, cereais integrais, oleaginosas e chás.

Entretanto, a ciência moderna demonstrou que não existe um "superantioxidante". Desse modo, o benefício que obtemos decorre da diversidade alimentar e da interação entre centenas de compostos naturais, aliado à microbiota intestinal, e não do consumo isolado de uma única substância. Pesquisas recentes mostram que uma dieta rica e variada em flavonoides está associada à redução da mortalidade, das doenças cardiovasculares e do diabetes tipo 2.

Por outro lado, nos últimos anos surgiu um mercado crescente de infusões intravenosas contendo vitamina C, glutationa, vitaminas do complexo B, magnésio e outras substâncias divulgadas como capazes de aumentar energia, fortalecer a imunidade, combater o envelhecimento, eliminar toxinas e melhorar o desempenho físico, ou seja, o "sonho dourado".

No entanto, embora essas promessas sejam atraentes, a literatura científica confiável recomenda cautela.

Sem dúvida, a administração intravenosa de vitamina C realmente alcança concentrações sanguíneas que não são obtidas por via oral. Nesse sentido, em algumas situações clínicas específicas, como protocolos de pesquisa em oncologia, sepse e pacientes críticos, essa estratégia vem sendo estudada e pode apresentar benefícios como terapia adjuvante. Entretanto, até o momento, não existem evidências robustas que justifiquem seu uso rotineiro em indivíduos saudáveis com finalidade de rejuvenescimento, prevenção de doenças ou melhora da disposição.

Situação semelhante ocorre com a glutationa intravenosa. Embora seja um dos principais antioxidantes naturais do organismo, ainda faltam estudos clínicos de alta qualidade que demonstrem benefícios consistentes para aplicações estéticas ou de promoção da saúde. Além disso, doses elevadas podem alterar artificialmente o equilíbrio e produzir efeitos biológicos ainda pouco compreendidos.

Outro aspecto importante mas frequentemente ignorado é que antioxidantes em excesso também podem ser prejudiciais. Em determinadas circunstâncias, passam a exercer paradoxalmente um efeito pró-oxidante, ou seja, favorece a formação de espécies reativas. Nesses termos, estudos clássicos demonstraram, por exemplo, aumento do risco de câncer de pulmão em fumantes que receberam suplementação de betacaroteno. Por seu turno, o excesso de vitamina A durante a gestação associa-se a malformações fetais, enquanto doses elevadas de vitamina E podem interferir na resposta imunológica.

E ainda, as infusões venosas não estão isentas de riscos, pois, além das possíveis reações alérgicas, flebites e infecções relacionadas ao acesso venoso, podem ocorrer alterações metabólicas, sobrecarga renal, com doença renal ou predisposição à formação de cálculos renais, especialmente com altas doses de vitamina C.

Importante é salientar que a sensação de bem-estar relatada por alguns pacientes após essas infusões não necessariamente significa benefício biológico duradouro. Assim é que parte desse efeito pode decorrer da própria hidratação venosa, da correção de deficiências nutricionais previamente existentes ou mesmo do chamado efeito placebo, fenômeno reconhecido em diversas intervenções médicas.

Por tudo isso, o melhor "soro antioxidante" continua sendo um estilo de vida saudável, ou seja, uma alimentação diversificada com bastante vegetal, atividade física regular, sono adequado, controle do estresse, abandono do tabagismo e prevenção da obesidade. Essas intervenções possuem evidências muito mais consistentes na redução do estresse oxidativo e na promoção da longevidade do que a maioria dos suplementos ou infusões comercializados.

Enfim, os antioxidantes são fundamentais para o funcionamento do organismo, mas devem ser utilizados com base em evidências científicas, individualização e indicação clínica precisa. Por isso, em medicina, como em tantas outras áreas, o equilíbrio continua sendo o melhor antioxidante.

Edição Semanal | João Pessoa - PB | 29/06/2026

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Escrito por Dr. João Modesto

CRM-PB 973 / RQE 1026

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