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A NOVA ERA DO DIABETES TIPO 1: PREVENÇÃO, RASTREAMENTO E INTERVENÇÃO PRECOCE

Publicado em 22 DE JUNHO DE 2026

A NOVA ERA DO DIABETES TIPO 1: PREVENÇÃO, RASTREAMENTO E INTERVENÇÃO PRECOCE

COLUNA SAÚDE — Dr. João Modesto Filho
Médico Endocrinologista — CRM PB 973 | RQE 1026

A NOVA ERA DO DIABETES TIPO 1: PREVENÇÃO, RASTREAMENTO E INTERVENÇÃO PRECOCE

Durante décadas, o diabetes tipo 1 (DM1) foi tido como uma doença inevitável e era identificado quando surgiam sintomas clássicos ou, muitas vezes, em situações graves de cetoacidose diabética. Entretanto, avanços recentes em imunologia, genética e biologia molecular estão transformando essa situação. Hoje, já é possível identificar indivíduos de risco antes do aparecimento da doença clínica e, em alguns casos, retardar sua progressão.

O DM1 é sabidamente uma doença autoimune caracterizada pela destruição progressiva das células beta pancreáticas, que são responsáveis pela produção de insulina. Essa agressão é mediada principalmente por estruturas celulares chamadas linfócitos T e pode ser detectada precocemente pela presença de autoanticorpos, como anti-GAD, anti-insulina (IAA), IA-2 e ZnT8.

Atualmente, sabe-se que o diabetes tipo 1 evolui em estágios. No estágio 1, a pessoa apresenta dois ou mais autoanticorpos positivos, mas mantém glicemia normal. No estágio 2, já existe alguma disfunção metabólica com alterações discretas da glicose sanguínea. O estágio 3 corresponde ao diabetes clínico propriamente dito.

Uma das descobertas mais importantes dos últimos anos é que a maioria dos DM1 não possuem familiares de primeiro grau com a doença. Isso levou diversos países a abandonarem estratégias baseadas apenas no histórico familiar e adotarem programas de rastreamento populacional.

Assim é que, estudos realizados na Alemanha, Estados Unidos, Israel, Finlândia, Austrália e Inglaterra demonstraram que o rastreamento por autoanticorpos permite identificar precocemente indivíduos de risco, reduzindo bastante os casos de cetoacidose no diagnóstico e melhorando os resultados clínicos de longo prazo.

Nesse sentido, as evidências científicas atuais sugerem que a melhor estratégia é a de realizar a triagem em duas ocasiões, sendo uma aos 2 anos e outra aos 6 anos de idade. Esse tipo de abordagem pode identificar mais de 80% dos futuros casos de DM1 antes do aparecimento da doença clínica.

Por outro lado, diversos fatores ambientais parecem influenciar o surgimento da autoimunidade. Entre eles destacam-se infecções virais, especialmente por enterovírus, alterações da microbiota intestinal, obesidade infantil e fatores relacionados à permeabilidade intestinal.

Nos últimos anos a microbiota intestinal vem sendo reconhecida como um dos itens mais promissores na compreensão do DM1. Vários estudos vêm mostrando que pessoas que desenvolvem diabetes apresentam alterações importantes na composição bacteriana intestinal, com aumento da permeabilidade da mucosa e maior ativação do sistema imunológico. Mas também existem fatores potencialmente protetores. Entre eles destacam-se aleitamento materno, níveis adequados de vitamina D, ingestão adequada de ômega-3 e manutenção de hábitos saudáveis desde a infância.

Embora uma substância chamada peptídeo C continue sendo a principal marcadora da função residual das células beta, ainda existem limitações importantes na avaliação da reserva pancreática. Por conta disso, na prevenção primária, diversas estratégias foram estudadas, incluindo insulina oral, suplementação vitamínica, modificação alimentar e intervenções imunológicas, mas, até o momento os resultados têm sido modestos e insuficientes para adoção rotineira.

Sem dúvida, o maior avanço da última década ocorreu na prevenção secundária, ou seja, naquelas pessoas que já apresentam autoanticorpos e alterações metabólicas iniciais. Nesse cenário, surgiu uma substância chamada teplizumabe, que é um anticorpo monoclonal e que atua modulando a resposta imunológica. Essa substância reduz a atividade das células T agressoras e favorece mecanismos regulatórios, retardando a destruição das células beta pancreáticas. Estudos clínicos demonstraram que o tratamento pode retardar de forma significativa o aparecimento do diabetes clínico.

O teplizumabe foi aprovado nos Estados Unidos em 2022 e recentemente, no Brasil, recebeu aprovação da Anvisa para utilização em pacientes com DM1 estágio 2. Desse modo, e pela primeira vez, dispomos de uma terapia capaz de modificar a história natural da doença antes do aparecimento da dependência plena de insulina.

Apesar desses avanços, muitos desafios permanecem. Assim, questões relacionadas ao custo do rastreamento populacional, acesso aos testes laboratoriais, disponibilidade dos medicamentos e organização dos sistemas de saúde ainda precisam ser enfrentadas. Alguns projetos brasileiros de rastreamento populacional já estão em andamento, alinhando nosso país às principais iniciativas internacionais e ampliando a geração de dados nacionais sobre a doença.

Por tudo isso, o diabetes tipo 1 não deve mais ser visto apenas como uma doença a ser tratada após o diagnóstico, e sim, que pode ser identificado e acompanhado muito antes da manifestação clínica. Por fim, estamos entrando em uma nova fase da história do diabetes tipo 1. A era da simples reposição de insulina está dando lugar à medicina de precisão, baseada em rastreamento, estratificação de risco, imunomodulação e prevenção.

Edição Semanal | João Pessoa - PB | 22/06/2026

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Escrito por Dr. João Modesto

CRM-PB 973 / RQE 1026

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